Opinião: A tragédia anunciada e a co-responsabilidade dos movimentos de moradia

A tragédia que deixou oficialmente uma pessoa desaparecida e colocou em risco de vida outras 400 no Largo do Paissandu, no centro da capital, levantou — como não poderia ser diferente — a tese da tragédia anunciada.

O edifício Wilton Paes de Almeida, de 1968, que já abrigou a sede da Polícia Federal entre 1980 e 2003, também foi sede do INSS, e foi completamente abandonado pelo governo federal (proprietário do edifício) e ocupado irregularmente como moradia, por movimentos, que ali colocaram 120 famílias (ou 400 pessoas) sob condições de risco extremo. O prédio era uma construção concebida para uso comercial e nunca possuiu perfil residencial.

Ninguém nunca ignorou o risco que o prédio representava. O Corpo de Bombeiros já alertou do perigo que a construção representava. Moradores, ex-moradores e vizinhos do prédio sempre manifestaram preocupação com o risco de uma tragédia tomar conta dos 24 andares do prédio. Até o pastor da Igreja Luterana de São Paulo, situada ao lado do prédio e parcialmente destruída pelo desabamento, também manifestava preocupação com os moradores do prédio vizinho de sua igreja. O próprio governador Márcio França usou nesta terça-feira o termo ‘tragédia anunciada’.

Em entrevista ao site R7, a professora Maísa Ferreira Alves, que trabalha como voluntária na região, chegou a denunciar a situação do prédio no passado.

“Eu avisei a prefeitura que a situação era terrível. Muitos fios, muito gato e sem o mínimo de condições de higiene.”

Ministério Público recebeu denúncia em 2015. O morador de um prédio vizinho, Rogério Tadeu Balek chegou a denunciar a situação ao Ministério Público. A denúncia protocolada por Balek virou um inquérito civil.

“Em 2015 houve uma desocupação do prédio pela Defesa Civil e Bombeiros, 15 dias depois o local foi ocupado por movimentos sociais”, relatou Balek.

Em entrevista à rádio Jovem Pan, o dono de um hotel vizinho ao prédio que desabou na madrugada deste 1° de maio, identificado pela reportagem apenas como César, também revelou que a situação do edifício era insustentável e lembrou que moradores mantinham todo tipo de instalações de gás e elétricas precárias.

Governo errou ao não esvaziar o prédio. O poder público tinha a obrigação, claro, em primeiro lugar, de ter oferecido emergencialmente moradias às famílias, ainda que temporárias, ainda que não ideais. O poder público tinha sim que ter retirado todos que ocupavam o prédio, ainda que à força. A prioridade, neste caso, deveria ter sido a vida. O Corpo de Bombeiros confirmou nesta terça-feira (1º) ter identificado e alertado, em 2015, para inúmeras irregularidades no prédio, como materiais combustíveis, instalações irregulares e até obstruções de rotas de fuga. Por sorte não foi uma carnificina. Por sorte. Esse é o perigo.

Um erro grave na repercussão desse desabamento tem sido em delimitar o território da culpa no âmbito das autoridades, entenda-se, ao que parece, governo federal e prefeitura. Poucos estão se dando conta que foram os movimentos sociais que colocaram as pessoas ali e assumiram (ou não) todos os riscos.

Movimentos erraram ao ocupar o prédio. Foram, aliás, os primeiros a errar neste caso. Foram eles que colocaram todas essas famílias lá dentro, mesmo sabendo de todo os riscos que corriam cerca de 400 pessoas que lá passaram a residir. Os movimentos pregavam, é claro, a tal ‘resistência’. Cabe perguntar: Resistir a que preço? Com a vida?

Muitas dessas pessoas, extremamente humildes – diga-se, tendem a obedecer exclusivamente aos líderes desses movimentos e a desobedecer qualquer recomendação de qualquer autoridade que seja, como Corpo de Bombeiros e Defesa Civil, exatamente como ocorreu nesse caso.

O poder público, ao que parece, decidiu não peitar esses líderes já que, não raro, quando as autoridades decidem agir desocupando tais imóveis, essas lideranças simulam abusos para faturar politicamente colocando o Estado como repressor. Um erro grave se submeter ao risco dessa narrativa.

Nenhuma causa, nenhuma demanda social, por mais justa que seja, pode permitir que tantas vidas sejam colocadas em risco de maneira tão maquiavélica e cruel por grupos políticos, deixando pessoas vivendo perigosamente com tantas irregularidades, instalações elétricas e de gás temerariamente feitas por quem não tem a menor condição de atestar sua segurança.

Não bastando colocar centenas de vidas humanas em risco iminente de morte, há denúncias de que líderes responsáveis pela ocupação cobravam “aluguéis” por aquilo que não eram deles e por aquilo que nem davam manutenção, fazendo desses movimentos algo mais parecido com milícias exploradoras de massas do que grupos realmente preocupados com um teto seguro para pessoas sem teto.

É primordial, até para que se tente evitar outras tragédias Brasil afora, que esses movimentos sejam lembrados que podem sim ser responsabilizados por colocar essas pessoas em situações tão perigosas. O edifício Wilton Paes de Almeida é somente um caso entre tantos outros prédios que são verdadeiras bombas-relógio aguardando por serem desarmadas por um poder público acovardado por essas milícias.

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01/05/2018



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