Cracolândia não acabou, mas nunca esteve tão próxima do fim

Região dominada pelas drogas há décadas, a Cracolândia se institucionalizou, aumentou de tamanho e ainda criou “filiais” por toda a cidade. Nenhum metro quadrado do país concentra tanta ilegalidade e degradação humana que essa região, no centro da capital paulista.

Os dependentes químicos que sempre viveram na área são verdadeiros zumbis, muitos não sabem o próprio nome, não raciocinam, agem por instinto, são agressivos, doentes por completo e sem nenhuma condição de ajudar a si mesmo.

O poder público municipal deixou a situação prosperar ao longo dos anos. Até sábado passado, o local era um grande shopping da droga, não somente de crack, mas de todo tipo de droga. O tráfico movimentava R$15 milhões mensalmente na Cracolândia.

TRAFICANTES E ARMAS. Para se ter uma ideia, a Polícia Militar, que possui uma base fixa na região, nunca foi capaz de fazer muita coisa, já que se encontravam em enorme desvantagem diante de traficantes que circulavam por ali 24 horas por dia armados com fuzis, pistolas, facões. Qualquer movimentação do poder público na área era suficiente para “virar” a situação e dar início ao confronto.

Como fazer um trabalho sério de assistência social e de tratamento médico aos dependentes, quando quem manda na área é uma facção criminosa que tem como único objetivo manter as coisas como estão? Tinham ao seu favor movimentos políticos, que em vez de estarem ali para ajudar os dependentes, na prática ajudavam na manutenção daquela condição para o tráfico e para própria exploração política.

Até mesmo o programa “De Braços Abertos”, da gestão Fernando Haddad (PT), ao dar dinheiro aos usuários, se tornava num dos maiores financiadores do tráfico local. Sem nenhum atendimento médico, usuários com dinheiro na mão, obviamente, gastavam tudo com a droga.

O programa já foi encerrado pelo prefeito João Doria.

Limpar as ruas para limpar as pessoas

Só havia uma maneira de começar a cuidar do problema: eliminar os traficantes da região. E com traficante, todos nós sabemos, somente com polícia.

E foi o que aconteceu na manhã do último domingo, 21, quando mil policiais retomaram o controle da região e prenderam 48 traficantes, sengundo a Secretária de Segurança Pública (SSP).

“O objetivo principal era atingir o escalão, os atacadistas – que vinham abaixo do escalão que administrava a distribuição de drogas na região – e os varejistas [que faziam a venda das drogas nas barracas]”, explicou o diretor do Denarc, Ruy Ferraz Fontes. Segundo ele, 80% dos presos faz parte de uma facção criminosa e dois deles eram os líderes do tráfico no local.

Passada essa fase mais aguda da ação policial, equipes de zeladoria limparam e removeram toneladas de lixo da área, liberaram vias e as ruas voltaram a ser ocupadas pela população.

Cerca de 600 agentes sociais também entram em ação na tentativa (muito difícil, diga-se) em convencer pessoas sob efeito do crack que o melhor para elas é o tratamento médico. O programa Redenção prevê novos leitos para tratamento de desintoxicação de usuários, 276 foram criados, diz o município. A rede estadual, por aua vez, tem cerca de 3 mil vagas, entre próprias e convênios com entidades.

Segundo a prefeitura, mais de 500 dependentes já foram acolhidos no Complexo Prates e no Centro Temporário de Acolhimento (CTA).

INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA. A partir de agora é preciso discutir a internação compulsoria, que parece ser  mais do que necessária. É o que famílias com condições fazem para tirar seus entes queridos do mundo do crack ou da cocaína, é o que precisa ser feito agora em São Paulo: salvar vidas, ainda que contra a vontade do próprio dependente ou de pessoas de má fé que o cercam.

Para isso, a prefeitura busca autorização do Tribunal de Justiça para que médicos possam avaliar caso a caso e recomendar a internação médica compulsória em casos mais graves.

As próximas semanas serão delicadas para todos os envolvidos com as ações sociais. Uma guerra jurídica é certa, há muitos que precisam da Cracolândia viva. A Cracolândia ainda não acabou, mas também nunca esteve tão próxima de acabar. O poder público não pode recuar.



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